Café, vinho e história: produtores contam no Green Rio como o turismo rural transforma propriedades fluminense

Geiza Rocha, Mozart Valle, Laura Tassinari Marcelo Rozental e João Luiz de Carvalho Junior

 

O enoturismo já responde por metade do faturamento da Casa Rozental e por 25% do faturamento da Vinícola Tassinari, duas propriedades da Serra fluminense. Os números foram apresentados nesta quinta-feira (29/10), durante o painel “Conectar, receber e prosperar: o turismo rural do SENAR Rio”, no Green Rio. A mesa reuniu produtores do aplicativo Caminho da Roça para discutir como transformar propriedades produtivas em destinos turísticos.

Mediada pela jornalista Geiza Rocha, a conversa teve a participação de Mozart Valle, do SENAR Rio; Laura Tassinari; Marcelo Rozental; e João Luiz de Carvalho Junior, da Fazenda Santana do Turvo, no Vale do Café. O recado foi comum aos quatro: a experiência é o produto. E ela se constrói com simplicidade, preparo e cooperação entre vizinhos.

Marcelo Rozental comprou a propriedade em 2021 e só abriu a porteira em 2025, quando a primeira garrafa ficou pronta. “São quatro anos só investindo. Uma pessoa sã não faria isso. Mas 42 malucos na serra resolveram fazer.” Na Tassinari, onde a família cultiva café há mais de 45 anos, a uva chegou em 2019 e os visitantes, em 2024. Eles são recebidos na varanda da casa, que virou o charme do passeio.

Para Mozart Valle, que há cerca de 20 anos ministra cursos de turismo rural pelo SENAR, toda propriedade rural já está pronta para receber turistas: o modo de vida do campo é o atrativo. “Qual o problema de o lençol ser estampado? É justamente o que as pessoas não têm no dia a dia.” Simplicidade, porém, não é improviso. “Para o turista, o novo dá medo”, disse. Por isso, receber exige preparo e eliminar as lacunas que afastam o visitante.

Foi por um desses cursos que João Luiz de Carvalho Junior começou. Hoje, a visita guiada à Fazenda Santana do Turvo percorre o engenho e conta a origem da feijoada e da rabada, criadas pelos escravizados a partir do que a casa-grande descartava.

Território em rede

O ponto em que todos convergiram foi a força do território. Na Casa Rozental, a degustação é feita só com produtos da região, e os visitantes são orientados a comprá-los no centrinho de Secretário. Laura e Marcelo indicam pousadas próximas, e casais que degustam pela manhã na Tassinari costumam se reencontrar à tarde na Rozental. “A gente começa a criar um território, como se faz no Sul ou fora do país”, disse Marcelo.

A cooperação também enfrenta desafios comuns: estradas de terra, dependência do clima, mão de obra que ainda vem de fora e, sobretudo, falta de divulgação. Mozart propôs transformar as indicações entre vizinhos em pacotes fechados, para entregar ao turista um produto mais redondo. “Produzir é difícil. Vinificar é difícil. Agora, vender é muito mais complicado”, resumiu Laura.

Aos produtores que pensam em abrir a porteira, os conselhos foram curtos. Laura: criar a própria história. Marcelo: ter paixão, “porque é trabalhoso”. Junior: vencer a barreira de se achar sem graça. Mozart: experimentar.

Ao encerrar, Geiza Rocha mostrou que é errada a ideia de que o Rio de Janeiro não tem rural. Tem sim, e com muitas pequenas propriedades ainda por descobrir. O caminho para isso já está traçado: o aplicativo Caminho da Roça, que é gratuito e está disponível para iOS e Android.

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